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Economia

Confiança do consumidor brasileiro atinge maior nível desde 2015


  • 29 de julho de 2026 às 08h34min

Índice da CNC chegou a 105,6 pontos em julho, puxado pela retomada da compra de bens duráveis entre famílias de menor renda. (Foto: Reprodução)

Um novo levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que os brasileiros estão mais otimistas na hora de consumir. A Intenção de Consumo das Famílias (ICF) chegou a 105,6 pontos em julho de 2026, o patamar mais alto desde março de 2015. Na comparação mensal, o avanço foi discreto, de 0,1%, mas o crescimento acumulado em doze meses chegou a 2,6%.

O motor por trás dessa melhora foi a volta do interesse por itens de maior valor, como carros, eletrodomésticos, móveis e eletrônicos. A procura por esse tipo de produto saltou 20% frente a julho do ano passado. Mas os analistas fazem uma ressalva: não se trata de uma explosão de consumo, e sim de famílias finalmente colocando em prática compras que vinham represando desde o período de inflação alta.

Esse efeito aparece com mais força justamente entre os lares que recebem até dez salários mínimos, grupo que puxou a alta do índice. Dois fatores ajudaram: os preços de alguns produtos perderam fôlego e o crédito passou a parecer um pouco mais acessível, condições que abriram espaço para essas famílias finalmente trocarem bens que estavam adiados havia tempo. Mais do que aquecimento da demanda, o cenário sugere um mercado se acomodando de volta ao normal.

Um dos motivos dessa reação está nos próprios preços: os bens duráveis acumularam alta de apenas 0,78% em doze meses, taxa bem inferior à inflação geral apontada pelo IPCA. Com produtos relativamente mais baratos, ficou mais fácil para o consumidor justificar gastos que antes pareciam fora de alcance.

A sensação de que o crédito está um pouco mais fácil de conseguir também pesou no resultado. Esse indicador específico subiu 0,8% em julho e acumula alta de 7,4% no ano, ainda que os juros altos continuem encarecendo os financiamentos. Já o item que mede as expectativas de consumo futuro avançou para 108,6 pontos, sinal de que as famílias pretendem seguir realizando essas compras adiadas, embora isso não signifique necessariamente confiança maior na economia como um todo.

O retrato que a pesquisa traz, porém, não é de um consumidor totalmente despreocupado. Em relação ao emprego, o clima segue positivo: 42,2% dos entrevistados dizem se sentir seguros na ocupação atual. Já a leitura sobre o futuro profissional caminha na direção oposta, o indicador de perspectiva de trabalho recuou pelo terceiro mês seguido e foi ao menor nível desde novembro de 2022. A percepção sobre a renda também piorou um pouco, movimento que acompanha a desaceleração real dos rendimentos captada pela PNAD Contínua. Ou seja: o brasileiro se sente relativamente seguro hoje, mas olha para o amanhã com mais desconfiança.

Esse comportamento revela um consumidor mais calculista: aproveita a janela de oportunidade para resolver compras que estavam paradas, mas evita se comprometer além da conta diante de um cenário de trabalho e renda ainda incerto.

Para o varejo, a notícia é positiva, sobretudo para o setor de bens duráveis, que costuma ser termômetro inicial de qualquer melhora no consumo. Ainda assim, o próprio levantamento reforça que essa recuperação avança de forma lenta e concentrada em grupos específicos, longe de configurar uma retomada generalizada. O que se vê, portanto, não é o retorno do consumo por impulso, mas famílias fazendo escolhas mais planejadas, dispostas a aproveitar o momento, sem perder de vista as incertezas que ainda cercam a economia brasileira.

Por Mirelly Rodrigues