Mais da metade dos fumantes brasileiros tenta parar, mas poucos têm acesso a tratamento

Mais da metade dos brasileiros que fumam ou já fumaram tentou abandonar o cigarro no último ano, mas poucos tiveram acesso a tratamento. Segundo uma pesquisa inédita, 54,1% desse público tentou parar de fumar, enquanto somente 13,4% recebeu algum tipo de acompanhamento especializado.
Os ex-fumantes representam 18,3% da população adulta brasileira, percentual superior aos 11,3% que ainda fumam. Outros 70% dos entrevistados afirmaram nunca ter usado cigarro. Os dados fazem parte da nota técnica “Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer”, produzida pela Umane e pela Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive.
A maioria da população conhece os danos provocados pelo tabagismo. Cerca de nove em cada dez entrevistados reconhecem o cigarro como um fator de risco para o câncer, sem grande diferença entre fumantes, ex-fumantes e pessoas que nunca fumaram.
Os serviços de saúde também aparecem como importantes fontes de orientação. Entre fumantes e ex-fumantes, 69,4% disseram ter sido questionados por médicos ou outros profissionais sobre o hábito de fumar, enquanto 55,1% receberam conselhos para abandonar o cigarro. Apesar disso, apenas 13,4% chegaram ao tratamento e 11,4% procuraram orientação pelo número informado nas embalagens.
O SUS oferece acompanhamento para quem deseja parar de fumar, principalmente nas unidades de atenção básica. O tratamento pode incluir aconselhamento, grupos de apoio e medicamentos, conforme a avaliação dos profissionais. O Disque Saúde 136 também fornece orientações sobre como abandonar o cigarro.
A pesquisa mostra ainda que 80% da população reconhece o fumo passivo como um risco para o câncer. Essa percepção é menor entre os jovens de 18 a 24 anos, com 67,4%, e aumenta para 84,3% entre pessoas de 25 a 59 anos e 85,1% entre aquelas com 60 anos ou mais.
Os cigarros eletrônicos também representam um desafio. Apesar da proibição, 14,5% dos entrevistados disseram que já utilizaram ou ainda utilizam esses dispositivos. Embora 86% reconheçam o risco de câncer, 18,4% acreditam de forma equivocada que os produtos podem funcionar como uma estratégia de redução de danos.
Essa crença é mais comum entre os jovens. Entre os entrevistados de 18 a 24 anos, 25% consideram os dispositivos uma alternativa para reduzir os danos, diante de 17,9% na faixa de 25 a 29 anos e 9% entre as pessoas com 60 anos ou mais.
Outra pesquisa, realizada anteriormente, mostrou que a curiosidade e a novidade estão entre os principais motivos para a experimentação. Entre as pessoas que usavam ou já haviam utilizado cigarro eletrônico, 20,5% citaram a curiosidade, 11,6% disseram que o produto estava “na moda” e somente 3% afirmaram que buscavam parar de fumar o cigarro convencional.
O primeiro contato com esses dispositivos também acontece principalmente entre adolescentes e jovens adultos. Do total, 37,7% experimentaram entre 18 e 24 anos e 19,2% tinham 17 anos ou menos, indicando que quase seis em cada dez tiveram contato antes dos 25 anos.
A Anvisa proíbe a fabricação, a importação, a comercialização, a distribuição, o armazenamento, o transporte e a propaganda de todos os dispositivos eletrônicos para fumar no Brasil. A proibição, atualizada pela RDC nº 855/2024, também inclui peças, acessórios e refis. Agência Nacional de Vigilância Sanitária
O novo levantamento ouviu 6.566 pessoas maiores de 18 anos em todos os estados e no Distrito Federal, entre setembro e outubro de 2025. A pesquisa anterior sobre a experimentação de cigarros eletrônicos faz parte do Covitel 2023, desenvolvido pela Vital Strategies e pela Universidade Federal de Pelotas, com financiamento da Umane.
Por Mirelly Rodrigues
