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Brasil

Caso Master alcança seis ministros do STF ou familiares e amplia crise na Corte


  • 21 de setembro de 2026 às 07h36min

Mensagens, contratos e relatórios da Polícia Federal revelaram diferentes graus de proximidade entre Daniel Vorcaro e integrantes do Supremo. (Foto: Reprodução)

As investigações sobre as fraudes atribuídas ao Banco Master alcançaram seis dos dez integrantes atuais do Supremo Tribunal Federal (STF), seja pela menção direta aos ministros ou por relações de familiares deles com pessoas e empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro. Os elementos revelados até o momento apresentam diferentes situações e não significam, por si só, envolvimento dos citados nos crimes investigados.

O Caso Master começou a ganhar dimensão nacional em novembro de 2025, com a primeira fase da Operação Compliance Zero. Desde então, as sucessivas etapas da investigação resultaram em prisões, quebras de sigilo e apreensão de documentos e equipamentos, além de revelarem a presença de Vorcaro nos meios empresarial, político e jurídico.

A crise chegou ao STF depois que dados extraídos do celular do banqueiro revelaram mensagens, contratos e encontros relacionados a integrantes da Corte. Com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso e a cadeira ainda desocupada, o Supremo funciona atualmente com dez ministros.

Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli e Gilmar Mendes foram mencionados diretamente em informações relacionadas ao caso. Também apareceram referências aos filhos de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Edson Fachin e Flávio Dino não foram citados nas apurações divulgadas até agora.

Na sexta-feira (18), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Vorcaro “corrompeu todo mundo” e mencionou o suposto envolvimento de autoridades dos poderes Judiciário e Legislativo. A declaração política do presidente, no entanto, não representa uma conclusão jurídica sobre a responsabilidade das pessoas citadas.

STF avalia possível investigação de ministros

Na terça-feira (15), o Supremo realizou um julgamento inédito para discutir a possibilidade de abertura de investigação contra Alexandre de Moraes por causa das mensagens atribuídas a Vorcaro. A sessão, marcada por discussões entre os ministros, foi interrompida após um pedido de vista de Flávio Dino.

O relatório da Polícia Federal submetido à análise possui 218 páginas. Segundo o documento, foram encontradas 52 mensagens que teriam sido encaminhadas por Vorcaro a Moraes entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão do banqueiro.

Os registros indicariam que Vorcaro procurava orientações jurídicas e informações sobre o andamento das investigações. Como parte das respostas teria sido enviada por meio do recurso de visualização única, o conteúdo integral das conversas não pôde ser recuperado.

Outro procedimento discutiria a atuação de André Mendonça como relator do Caso Master. A sessão estava prevista para terça-feira (23), mas foi retirada de pauta pelo presidente do STF, Edson Fachin.

O pedido partiu de Alexandre de Moraes, que questiona a manutenção sob sigilo de informações que o atingiam e a ausência de envio imediato do material ao Plenário. Mendonça nega ter cometido qualquer irregularidade na condução das investigações.

Alexandre de Moraes

A Polícia Federal identificou mais de 50 mensagens que teriam sido enviadas por Daniel Vorcaro a Alexandre de Moraes. De acordo com a apuração, o banqueiro escrevia parte do conteúdo no bloco de notas do celular, fazia capturas da tela e encaminhava as imagens para visualização única.

No dia da prisão, Vorcaro teria informado ao ministro que tentava concluir uma transação para evitar o colapso do banco e perguntado se havia alguma notícia sobre um eventual bloqueio. A resposta atribuída a Moraes não foi recuperada.

As investigações também indicaram que Moraes teria colaborado com a organização do I Fórum Jurídico – Brasil de Ideias, realizado em Londres, em abril de 2024. O encontro reuniu autoridades, empresários e integrantes do Judiciário.

Relatórios da PF apontaram ainda um contrato de serviços advocatícios entre empresas relacionadas ao Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O acordo previa pagamentos que poderiam alcançar R$ 131 milhões, em parcelas mensais de R$ 3 milhões. Documentos analisados pela investigação também relacionaram Moraes à edição do arquivo do contrato.

O ministro negou ter recebido mensagens no dia da prisão e classificou os diálogos como fantasiosos. Também afirmou que os serviços realizados pelo escritório da esposa pertencem à esfera privada e não interferiram na atuação dele no STF.

André Mendonça

Registros incluídos no inquérito indicam que Vorcaro participou de reuniões com André Mendonça no Instituto Iter, entidade da qual o ministro foi sócio. Mendonça tornou-se posteriormente relator do Caso Master no Supremo e determinou a retirada do sigilo de relatórios policiais e movimentações financeiras.

Também foi revelado que a Cedro Participações, controlada pelo empresário Lucas Kallas, ex-parceiro de Vorcaro, fez um aporte milionário no instituto. A direção da entidade afirmou que o dinheiro foi destinado aos custos iniciais de funcionamento e decorreu de um contrato de empréstimo com possibilidade de conversão em participação. As informações divulgadas apontam um acordo de R$ 5,9 milhões.

Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, em março de 2025. Segundo o ministro, a conversa tratou exclusivamente de uma ação sobre precatórios que tramitava no STF e ocorreu por iniciativa do empresário. Ele sustenta que suas decisões como relator seguem o devido processo legal e buscam garantir transparência às apurações.

Dias Toffoli

O nome de Dias Toffoli aparece em mensagens sobre uma festa realizada por Vorcaro no Madame Satã, em São Paulo, em outubro de 2023. Em uma conversa, o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria afirmou que Toffoli tentaria comparecer depois de uma sessão no STF. Não há comprovação de que o ministro tenha participado do evento.

A ligação mais relevante envolve antigos negócios de parentes de Toffoli no Tayayá Aqua Resort, no Paraná. Uma participação no empreendimento pertencente à família foi vendida, em 2021, para fundos que posteriormente apareceram associados ao círculo empresarial de Vorcaro e à gestora Reag. As negociações ultrapassaram R$ 20 milhões.

Toffoli negou ter participado da festa e afirmou que nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro nem de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. O ministro disse ainda que os valores relacionados à venda do resort foram informados à Receita Federal e declarou-se suspeito para atuar no processo.

Gilmar Mendes

Gilmar Mendes foi mencionado em mensagens relacionadas ao envio de um convite para o fórum jurídico realizado em Londres. Até o momento, não foram apontados repasses financeiros ou indícios de irregularidade envolvendo o ministro nesse episódio.

Também foi identificado um encontro entre Gilmar e Vorcaro no gabinete do ministro, em abril de 2024. A reunião ocorreu antes do julgamento de um processo relacionado a usinas do setor sucroenergético. Na ação, Gilmar votou contra o pagamento do precatório, contrariando o interesse atribuído ao banqueiro.

O ministro afirmou que o encontro ocorreu na sede do STF e em ambiente institucional. Sobre o evento de Londres, declarou que menções feitas por terceiros não comprovam qualquer vínculo irregular com investigados.

Kassio Nunes Marques

O nome de Kassio Nunes Marques apareceu indiretamente em mensagens de terceiros. Um relatório da PF também relacionou as iniciais “KN” ao ministro ao descrever o aluguel de uma residência no Rio de Janeiro durante o Carnaval de 2025. A propriedade era avaliada em cerca de R$ 250 milhões.

Outros diálogos mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil ao advogado Kevin Marques, filho do ministro. Segundo as mensagens, os valores seriam referentes a consultoria jurídica e serviços na área tributária administrativa.

Nunes Marques afirmou que nunca trocou mensagens com Vorcaro nem fez pedidos ao banqueiro. Também declarou que o filho nunca prestou serviços ao Banco Master. A defesa de Kevin Marques sustenta que os pagamentos decorreram de serviços privados e não tinham relação com a instituição financeira ou com o STF.

Luiz Fux

As referências a Luiz Fux decorrem de conversas entre Daniel Vorcaro e Rodrigo Fux, filho do ministro. Os registros mostram tratamento próximo entre os dois e indicam que o advogado teria tentado articular um encontro do pai com o banqueiro durante o fórum realizado em Londres.

A assessoria do ministro afirmou que Rodrigo Fux atua em escritório privado e independente, sem influência nas decisões do gabinete do pai. A banca Fux Advogados também declarou que nunca prestou serviços, apresentou proposta ou recebeu valores de Vorcaro ou do Banco Master.

Citações não significam participação em crimes

As situações identificadas possuem naturezas e níveis de gravidade diferentes. Uma menção em mensagem, a presença em evento ou um encontro institucional não comprovam participação nas fraudes investigadas.

Parte das informações ainda será submetida à análise do Ministério Público, da Polícia Federal e do próprio Supremo. Caberá às autoridades verificar se os vínculos revelados representam apenas relações profissionais ou institucionais ou se existem elementos suficientes para abertura de novas investigações.

O avanço do Caso Master, no entanto, colocou o STF diante de um cenário incomum: a possibilidade de integrantes da Corte participarem de julgamentos que discutem a conduta de colegas ou fatos relacionados a familiares de ministros.

Por Mirelly Rodrigues