Possível golpe com carta de crédito fácil causa prejuízos em Caruaru

Um número crescente de consumidores em Caruaru tem procurado a Polícia Civil para denunciar possíveis irregularidades envolvendo ofertas de cartas de crédito com promessa de liberação rápida. De acordo com os relatos, mais de 100 pessoas já teriam registrado queixas após enfrentarem prejuízos financeiros em negociações que, inicialmente, pareciam vantajosas.
As abordagens, segundo as vítimas, costumam começar pelas redes sociais ou por ligações telefônicas, com propostas que destacam facilidade na aprovação, pouca burocracia e rapidez na liberação do valor. A possibilidade de acesso imediato ao crédito para aquisição de veículos, imóveis ou investimentos pessoais acaba sendo o principal atrativo.
O técnico em Administração Ricardo Camore conta que conheceu a oferta por meio do Instagram, atraído por publicações que mostravam supostos clientes já contemplados. “O que mais me chamou atenção foi a forma como eles divulgavam, mostrando pessoas ‘contempladas’. Hoje, eu acredito que muitas dessas pessoas podem ser ‘laranjas’”, relata.
Segundo ele, a promessa era de liberação rápida do crédito, com a possibilidade de acelerar ainda mais o processo por meio de um chamado “valor embutido”, que aumentaria as chances de contemplação e ajudaria a amortizar parcelas. A proposta envolvia uma carta de crédito de R$ 70 mil. Para entrar no negócio, Ricardo deu um sinal de R$ 4 mil e chegou a considerar pagar mais R$ 9 mil, cerca de 20% do valor total, para reforçar a promessa de contemplação rápida.
No dia da contratação, ele assinou um contrato vinculado a uma administradora de consórcio, embora a negociação tenha sido feita dentro de uma loja onde pretendia adquirir um veículo. Ele também afirma que presenciou uma suposta ligação naquele momento, feita pelo gerente para a administradora do consórcio, garantindo sua inclusão no próximo sorteio, algo que, posteriormente, ele acredita não ter acontecido. Após o pagamento, o consumidor relata que deixou de receber retorno da empresa e não foi incluído em grupos de acompanhamento, como havia sido prometido.
Só depois ele percebeu que, na prática, havia entrado em um consórcio, modalidade que depende de sorteios ou lances e não garante acesso imediato ao crédito. Ao tentar resolver a situação, recebeu a informação de que, para reaver o valor pago, precisaria aguardar a inclusão em um grupo de desistentes, o que poderia levar cerca de 10 anos. Além disso, o valor devolvido ainda sofreria desconto de taxas administrativas, que poderiam chegar a 50% ou 60% do total investido.
“Vai fazer um ano que isso aconteceu. Eu fiquei arrasado”, conta. Ele registrou boletim de ocorrência, procurou o Procon e ingressou com ação judicial, mas afirma que não houve acordo até o momento.
Outra consumidora, que preferiu não se identificar, relata uma situação semelhante. Segundo ela, recebeu uma ligação com a oferta de uma carta de crédito e foi até um escritório interessada em adquirir uma casa de até R$ 250 mil. Para isso, foi orientada a dar uma entrada de aproximadamente R$ 10.700.
Antes de fechar o negócio, ela afirma que questionou diretamente se se tratava de consórcio ou sorteio. “Eu disse que não queria consórcio de jeito nenhum”, conta. De acordo com o relato, o vendedor garantiu que não era, e que a carta de crédito seria liberada ainda naquele mês.
Para conseguir o valor de entrada, a consumidora vendeu a própria moto por R$ 10.700. O pagamento foi feito diretamente à empresa, com intermediação do próprio vendedor. No entanto, o prazo prometido não foi cumprido. Ao cobrar uma solução, ouviu que a liberação aconteceria no mês seguinte, por meio de um lance, momento em que percebeu a contradição.
Ela também afirma que foi orientada a apenas confirmar informações durante uma ligação da central, sem questionar. O contrato foi enviado depois e, ao ler o documento, percebeu que as condições eram completamente diferentes das que haviam sido apresentadas verbalmente. Ao tentar cancelar, recebeu a informação de que o valor só poderia ser devolvido ao final do grupo, o que poderia levar até 20 anos. Diante da situação, decidiu acionar a Justiça.
Apesar de envolverem histórias diferentes, os relatos apresentam pontos em comum, como promessa de liberação rápida de crédito, negação inicial de que se tratava de consórcio, pressão para pagamento de entrada e mudanças nas condições após o pagamento. Também são frequentes as queixas de dificuldade de contato com as empresas e devolução condicionada a prazos longos, com descontos significativos.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram grupos de consumidores reunidos, relatando experiências semelhantes e cobrando soluções. A repetição dos padrões nas denúncias reforça o alerta para possíveis práticas irregulares, ainda sob investigação.
A Polícia Civil de Pernambuco informou que está ciente das denúncias e que todas as ocorrências registradas estão sendo analisadas. Procedimentos investigativos foram instaurados com o objetivo de apurar os fatos, identificar possíveis envolvidos e esclarecer as circunstâncias.
Segundo a corporação, há indícios preliminares de crimes relacionados a fraudes, mas a tipificação penal poderá ser ajustada conforme o avanço das investigações. Por se tratar de apuração em andamento, detalhes adicionais não foram divulgados.
A orientação é que possíveis vítimas procurem uma unidade policial para formalizar a denúncia, apresentando documentos, comprovantes de pagamento e contratos que possam auxiliar no processo.
Especialistas também reforçam a importância de cautela ao contratar serviços financeiros. Em consórcios legítimos, não há garantia de contemplação imediata, e promessas de liberação rápida ou condições fora do padrão de mercado devem ser vistas com desconfiança.
O caso segue em investigação, enquanto novas vítimas continuam surgindo e reforçando um cenário de prejuízo financeiro, frustração e dificuldade para reaver o dinheiro investido.
Por Mirelly Rodrigues
