Agricultoras assumem o comando da terra e rompem séculos de invisibilidade no campo, em Caruaru

Caruaru completou 169 anos na última segunda-feira (18), e a data trouxe à tona uma história que, por muito tempo, ficou escondida atrás das porteiras das pequenas propriedades rurais. Em sintonia com o Ano Internacional da Mulher Agricultora, proposto pela ONU para ampliar a visibilidade e a autonomia feminina no campo, a Cidade 99.7 lançou a série Da Fazenda à Capital: Elas Comandam, um mergulho profundo no protagonismo das mulheres que sustentam, com as próprias mãos, parte essencial da economia caruaruense.

No segundo episódio da série, a reportagem contou que entre essas vozes está a da agricultora Regiane Rodrigues da Silva, que se apresenta com orgulho: “Caruaruense, dona da própria terra”. Ela descreve uma rotina que começa antes mesmo do galo cantar. “A gente se acorda cedo… tem as crianças para ir para a escola, tem que cuidar dos animais, plantar, ir para a roça, voltar para fazer o almoço e retornar ao trabalho”, conta. Sua fala ecoa a realidade de tantas agricultoras que dividem o tempo entre a lavoura e a casa, sem perder o ritmo nem a força.
Esse cenário, no entanto, é fruto de uma longa caminhada. Houve um tempo em que a mulher sequer podia se associar ao sindicato rural. A colaboradora financeira do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caruaru, Mariquinha Carvalho, lembra bem: “Alguns presidentes diziam que a mulher não tinha direito. Eu fui uma delas que tentou se associar e ouvi que não podia”. A mudança, construída com persistência, abriu espaço para que hoje as agricultoras sejam reconhecidas como empreendedoras que geram renda, ocupam feiras e movimentam a economia local.

A transformação também passa pelo acesso à assistência técnica. No coração da zona rural, esse apoio tem permitido que mulheres assumam a gestão dos próprios negócios. A agricultora Keila Torres, de 27 anos, é um exemplo dessa virada. Ela até pensou em seguir outro caminho, mas uma temporada na cidade grande a fez perceber onde realmente queria estar. “Senti falta do ambiente tranquilo. É um serviço pesado, mas não traz cansaço. Traz paz”, diz, com a serenidade de quem encontrou seu lugar no mundo.
Programas públicos têm reforçado essa autonomia. O gerente regional do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA), Leirson Bezerra, explica que iniciativas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) colocam a mulher no centro da gestão financeira da produção. “A gente solicita que a família seja a construtora da renda, dando independência e autonomia às mulheres”, afirma. Ele destaca que, quando o dinheiro fica nas mãos delas, o impacto é imediato: “Há melhoria na casa, na educação dos filhos, na qualidade de vida”.
A especialista em empreendedorismo Márcia Alves reforça esse olhar. Para ela, a independência financeira feminina cria bases sólidas para as próximas gerações. “A mulher, quando se coloca financeiramente independente, traz melhores condições de estudo e de vida para os filhos. É um olhar materno que transforma”, explica.
E Regiane, que abriu a reportagem, encerra com a força de quem vive essa transformação na pele. “Eu me sinto uma pessoa guerreira e orgulhosa. A gente dá conta de tudo. É um orgulho muito grande poder dizer que somos mulheres guerreiras hoje”, afirma, com a convicção de quem planta dignidade e colhe futuro.
No campo caruaruense, elas não apenas cultivam a terra. Elas cultivam autonomia, rompem ciclos, constroem caminhos. Mostram, dia após dia, que o progresso da cidade também nasce das mãos firmes e do olhar empreendedor de quem é dona do próprio chão.
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