Associação cobra maior presença de profissionais negros no audiovisual brasileiro

A Associação de Profissionais do Audiovisual Negro no Brasil (Apan) divulgou uma carta direcionada ao setor e aos candidatos das Eleições 2026 com propostas para ampliar a presença e garantir a permanência de profissionais negros no mercado audiovisual. A entidade, que é apartidária, também defende uma distribuição mais justa dos recursos públicos destinados às produções brasileiras.
Segundo o documento, a participação de pessoas negras ainda é desproporcional tanto no acesso aos postos de trabalho quanto na obtenção das maiores parcelas do financiamento público. Na televisão aberta, 65% dos trabalhadores com vínculo formal são brancos, enquanto 32,6% são pretos ou pardos.
No cinema, as pessoas brancas representam 69,6% dos profissionais, diante de 29,3% de pessoas negras. As mulheres negras enfrentam ainda maior desigualdade salarial e menor presença em funções de liderança e criação.
Um dos dados destacados pela Apan mostra que 94% dos filmes contemplados com recursos federais foram dirigidos por pessoas brancas. Entre as produções que receberam mais de R$ 5 milhões em verba pública, mais de 90% também têm direção de profissionais brancos.
Profissionais negros recebem menos
A associação aponta que profissionais negros estão concentrados principalmente em funções técnicas e enfrentam mais informalidade, salários menores e menor proteção trabalhista. Diante desse cenário, a carta propõe mecanismos para reduzir as desigualdades raciais e de gênero na composição das equipes.
Entre as medidas defendidas está a ampliação das políticas afirmativas no financiamento público. Atualmente, ao menos 25% dos recursos devem ser destinados a ações afirmativas: 15% para pessoas negras, 5% para indígenas e 5% para pessoas com deficiência.
A presidente da Apan, Tatiana Carvalho, afirma que o cinema negro faz parte do cinema brasileiro e precisa ser contemplado por políticas públicas menos excludentes. A entidade também propõe o reconhecimento das chamadas empresas vocacionadas à reparação histórica, formadas por quadros societários com pelo menos 50% de pessoas negras.
A carta ainda defende a criação de bancas de heteroidentificação nos processos de seleção. A proposta surge após denúncias sobre fraudes na aplicação das cotas, como casos em que profissionais negros teriam sido incluídos apenas formalmente nos projetos e afastados depois da liberação dos recursos.
Produções negras avançam, mas acesso continua desigual
Apesar das dificuldades, a produção audiovisual negra ganhou mais espaço nos últimos anos. Conforme o levantamento apresentado pela associação, 83% das obras brasileiras dirigidas por pessoas negras foram produzidas depois de 2010.
A Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc também contribuíram para esse avanço. Em 2025, 58% dos festivais voltados a obras dirigidas por profissionais negros tiveram participação direta desses incentivos.
A presença de narrativas negras também ganhou destaque na pré-seleção brasileira para o Oscar. Além de “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton e escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação, a lista com seis produções incluía “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins, e “Nosso Segredo”, de Grace Passô.
Para a Apan, o reconhecimento dessas produções não elimina a desigualdade estrutural do setor. A entidade avalia que o espaço ocupado por artistas e realizadores não brancos permanece abaixo do esperado em um país cuja maioria da população é negra.
Carta pede mais proteção ao cinema nacional
O documento também defende a realização de festivais com recorte racial, a ampliação da exibição de produções brasileiras e a criação de uma legislação mais forte para proteger o cinema nacional. Uma das propostas é reservar 20% das sessões das salas de cinema para obras produzidas no país.
A entidade considera que a legislação atual ainda oferece pouca proteção ao audiovisual brasileiro. Embora cerca de 200 filmes nacionais sejam produzidos por ano, grande parte dessas obras não chega ao público.
Outra proposta é ampliar a exibição de produções negras nas escolas. A iniciativa poderia contribuir para o ensino da história e da cultura afro-brasileira, africana e indígena, além de formar novas gerações de espectadores e aproximar os estudantes das produções audiovisuais do próprio país.
A associação também avalia que medidas como a reativação do Conselho Superior de Cinema, o fortalecimento do Fundo Setorial do Audiovisual e a criação da plataforma gratuita Tela Brasil podem ajudar a ampliar o público e a circulação dos filmes nacionais.
