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Saúde

Cinco anos do início da vacinação contra a covid-19 no Brasil


  • 17 de janeiro de 2026 às 16h03min

Primeira dose aplicada em janeiro de 2021 simbolizou esperança, salvou vidas, mas também expôs atrasos que poderiam ter evitado milhares de mortes. (Imagem: reprodução)

Há cinco anos, o Brasil começava a enxergar uma saída para um dos períodos mais dramáticos de sua história recente. Em 17 de janeiro de 2021, poucas horas após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o uso emergencial de vacinas contra a covid-19, a enfermeira Mônica Calazans se tornou a primeira pessoa a receber o imunizante no país.

A escolha não foi aleatória. Mônica havia participado dos testes clínicos da CoronaVac no fim de 2020, estudos decisivos para comprovar a segurança e a eficácia da vacina. Na época, ela atuava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, referência nacional no tratamento de doenças infecciosas e um dos hospitais mais sobrecarregados durante a pandemia, com mais de 40 mil atendimentos relacionados à covid-19.

De plantão naquele domingo, a enfermeira foi surpreendida ao ser chamada para participar da cerimônia oficial, que aguardava a decisão final da Anvisa. Ao descobrir que seria a primeira brasileira vacinada, a emoção tomou conta. Para ela, o gesto representava mais do que uma aplicação: era um símbolo de resistência, ciência e esperança em meio ao luto coletivo vivido no país.

A vacinação em larga escala teve início no dia seguinte, 18 de janeiro, com a distribuição de um primeiro lote de 6 milhões de doses da CoronaVac, produzidas na China e importadas pelo Instituto Butantan. Posteriormente, a vacina passou a ser processada no Brasil com o envio do insumo farmacêutico ativo pela empresa Sinovac.

Poucos dias depois, em 23 de janeiro, o programa ganhou reforço com a chegada de 2 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca, inicialmente importadas da Índia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que mais tarde passou a dominar a tecnologia e produzir o imunizante em território nacional.

Diante da escassez inicial de doses, a campanha priorizou grupos mais vulneráveis, como profissionais de saúde da linha de frente, idosos institucionalizados, pessoas com deficiência e povos indígenas. O início da imunização coincidiu com o avanço da variante Gama, mais transmissível e letal, que pressionava hospitais e elevava o número de mortes.

O ritmo lento marcou os primeiros meses. Em cidades como o Rio de Janeiro, pessoas entre 60 e 70 anos só começaram a ser vacinadas entre março e abril de 2021. Ainda assim, os efeitos positivos logo se tornaram evidentes. Dados do Observatório Covid-19 Brasil indicam que, a partir de abril, houve queda acentuada nas internações e óbitos entre idosos.

Estimativas apontam que, apenas nos sete primeiros meses da campanha, cerca de 165 mil hospitalizações e 58 mil mortes nessa faixa etária foram evitadas. Com o avanço da produção nacional pelo Butantan e pela Fiocruz, somado à chegada de vacinas adquiridas no mercado internacional, o volume de doses cresceu de forma significativa.

Em um ano, o Brasil aplicou aproximadamente 339 milhões de doses, alcançando 84% da população. Especialistas calculam que a vacinação evitou 74% dos casos graves e 82% das mortes esperadas, poupando mais de 300 mil vidas.

Apesar dos resultados expressivos, estudos também apontam que os atrasos custaram caro. Pesquisas do Observatório Covid-19 Brasil indicam que, se a vacinação tivesse começado antes, mais de 100 mil internações e 47 mil mortes entre idosos poderiam ter sido evitadas. Avaliações acadêmicas sugerem que um início antecipado, aliado a mais doses e medidas de proteção, poderia ter reduzido em até 400 mil o número de óbitos no país.

Por trás das estatísticas, permanecem histórias de perdas irreparáveis. Familiares de vítimas relatam a dor de saber que muitos morreram semanas antes de ter acesso à vacina. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 concluiu que houve falhas graves na condução da política de vacinação, incluindo a recusa ou demora em negociar imunizantes, o que contribuiu para a escassez de doses e para a disseminação do vírus.

O relatório final da CPI apontou responsabilidades e sugeriu indiciamentos, posteriormente arquivados. No entanto, em 2024, o Supremo Tribunal Federal determinou a reabertura de investigações para apurar as denúncias.

Cinco anos depois, a primeira dose aplicada no Brasil permanece como um marco histórico. Ela simboliza o triunfo da ciência, mas também serve como lembrança de que decisões políticas e administrativas podem salvar — ou custar — milhares de vidas.