Em Caruaru, a revolução chega pelo Wi‑Fi: como a tecnologia colocou as agricultoras no comando do crédito rural

Todas as manhãs, Caruaru despertava para mais um dia de trabalho no campo — mas um campo que já não se parece com o de décadas atrás. No último 18 de maio, quando o município completou 169 anos, a Cidade 99.7 lançou uma série especial sobre o protagonismo feminino desde a origem da cidade, alinhada ao Ano Internacional da Mulher Agricultora, instituído pela ONU para ampliar a visibilidade e a autonomia das mulheres rurais até 2026. Nesta quarta-feira (20), o programa Manhã Cidade exibiu o terceiro episódio da série ‘De fazenda a capital: Elas comandam’, onde mostrou que a revolução que chega ao Agreste não vem apenas da terra fértil, mas do sinal de internet que atravessa porteiras e muda destinos.

Há alguns anos, enxadas, sementes e terra boa ganharam um aliado improvável: o roteador. “Esse aqui é o que salva a gente”, diz a agricultora Rejane Tabosa, apontando para o aparelho que distribui Wi‑Fi no sítio. Com um pé na tecnologia e outro na terra, ela explica que o aprendizado, antes transmitido “no famoso boca a boca”, agora chega por aplicativos, vídeos e grupos de troca entre produtoras. “Os erros que alguém cometeu antes de mim não preciso repetir”, afirma. Para ela, a internet não só amplia o conhecimento, mas abre portas para crédito, informação e novas formas de produzir.
Essa mudança é visível no acesso ao financiamento rural. Se antes ir ao banco era sinônimo de burocracia e deslocamento, hoje a assinatura digital permite que a agricultora gerencie todo o processo sem sair da propriedade. O gerente-geral do Agroamigo em Pernambuco, Evandro Souza, explica que o diferencial está na figura do agente de crédito. “Ele visita as comunidades, vai em cada povoado, em cada sítio. Tem produtor que mora a 50 quilômetros do centro, numa casinha isolada, e o agente vai lá, elabora o projeto e traz para o banco”, detalha.
O impacto é direto: 54% das propostas financiadas em Caruaru hoje são destinadas a mulheres. Evandro destaca que elas se diferenciam tanto na forma de investir quanto na responsabilidade com os pagamentos. E o processo ficou ainda mais simples: “Hoje em dia nem assinar no banco precisa mais. A assinatura é digital. Do início ao fim, ela não precisa vir ao banco em nenhum dia”.

Com crédito acessível e apoio técnico, quintais antes subutilizados viram áreas produtivas. A biofortificação — técnica de melhoramento genético natural desenvolvida pela Embrapa — tem ampliado a qualidade nutricional dos alimentos cultivados pelas famílias. “Produzimos alimentos mais ricos em ferro, zinco e vitamina A, sem transgenia”, explica o mestre em desenvolvimento rural Maciel Tavares. Ele reforça que o protagonismo feminino é central para o desenvolvimento da região: “Nos enche de orgulho ver as mulheres ocupando seus espaços, que são de fato e de direito”.
Para quem vive essa transformação, o crédito no próprio nome é mais que recurso: é autonomia. A agricultora Daiana Adriana da Silva já acessou duas linhas de financiamento. No último empréstimo, recebeu R$ 19 mil. “Vou fazer a reforma do meu galpão, que já está em processo, e também comprei ovelhas”, conta. No primeiro crédito, investiu em uma máquina de costura, diversificando a renda da família. “Através do meu galpão, coloco minhas galinhas e forneço aos programas”, diz, orgulhosa.
A força da capital do Agreste nasce no campo — e, cada vez mais, nas mãos das mulheres que plantam o futuro. Quando tecnologia, crédito e assistência técnica chegam até elas, o resultado ultrapassa a colheita: gera dignidade, autonomia e desenvolvimento para toda a região.
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