Novas orientações mudam tratamento da tireoide na gestação

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia atualizaram as orientações para o diagnóstico e o tratamento de alterações da tireoide durante a gestação. As mudanças foram apresentadas nesta sexta-feira (28), no Rio de Janeiro, durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia.
Uma das principais alterações envolve gestantes que possuem anticorpos anti-TPO positivos, mas apresentam níveis normais de TSH e T4 livre. Nesses casos, a levotiroxina não deve ser indicada apenas de forma preventiva, porque estudos recentes não encontraram redução nos riscos de aborto ou parto prematuro com o uso do medicamento.
O resultado positivo para anti-TPO indica uma predisposição ao desenvolvimento de alterações na tireoide, mas não significa, sozinho, que a gestante possui hipotireoidismo. Mesmo sem iniciar o medicamento, a função da glândula deverá continuar sendo acompanhada por exames, pois existe maior risco de o hipotireoidismo surgir ao longo da gravidez.
As novas recomendações brasileiras consideram a diretriz publicada em 2026 pela Associação Americana da Tireoide, que atualizou as orientações anteriores, divulgadas em 2017. O documento reúne recomendações sobre exames, tratamento do hipotireoidismo, alterações autoimunes, suplementação de iodo e cuidados antes, durante e depois da gravidez.
As mulheres que já possuíam hipotireoidismo antes da gestação continuam precisando de tratamento e acompanhamento médico. A dose da levotiroxina pode precisar de ajuste durante a gravidez, mas nenhuma gestante deve iniciar, aumentar, reduzir ou suspender o medicamento sem orientação profissional.
O Brasil manterá o rastreamento precoce das alterações da tireoide desde o início da gestação. A estratégia busca identificar rapidamente as mulheres que realmente precisam de tratamento e evitar o uso desnecessário de medicamentos naquelas que apresentam apenas uma predisposição.
Outra mudança envolve o hipotireoidismo subclínico, situação em que o TSH está elevado, mas o T4 livre permanece normal. Quando o TSH estiver entre 4 e 10 mUI/L, o início do tratamento passa a ser concentrado no primeiro trimestre, período em que o desenvolvimento do bebê depende mais dos hormônios produzidos pela mãe.
Se a alteração for identificada apenas no segundo ou terceiro trimestre, a orientação é acompanhar a função tireoidiana sem iniciar a levotiroxina de forma automática. O tratamento continua indicado quando o TSH ultrapassa 10 mUI/L, e a decisão também deverá considerar os resultados dos exames e o momento da gravidez.
Quando não for possível testar todas as gestantes, terão prioridade as mulheres com histórico de alterações ou tratamento da tireoide, doenças autoimunes, casos da doença na família, infertilidade, dois ou mais abortos ou uso de medicamentos que interfiram na glândula. Idade materna, obesidade e quantidade de gestações anteriores deixam de ser consideradas, isoladamente, fatores de risco.
A suplementação de iodo também não será recomendada de maneira automática para todas as gestantes no Brasil. A indicação deverá ser individualizada, principalmente em casos de dietas muito restritivas, alimentação vegana, ausência de sal iodado ou problemas de absorção.
Por Mirelly Rodrigues
