Quando o futuro brota da terra: as mulheres que reinventam Caruaru

O futuro de Caruaru continua nascendo onde tudo começou: no campo. E, desta vez, com novas protagonistas. Na última reportagem da série Fazenda Capital – Elas Comandam, da Cidade 99.7, o que se revela é um movimento profundo, silencioso e transformador — a sucessão rural feminina que une gerações, rompe estigmas e redesenha o mapa da autonomia no Agreste.

Na comunidade do Carneirinho, a agricultora Maria Rizonia da Silva Alves, a dona Riso, foi quem primeiro abriu caminho. Ela “plantou a semente do associativismo”, mostrando que a força coletiva alcança horizontes que o trabalho isolado não alcança. Seu exemplo, repetido no cotidiano, virou raiz dentro de casa e germinou na filha, Amanda Alves, que cresceu observando a potência da união. Hoje, à frente da Associação das Mulheres, Amanda encarna a nova face da juventude rural. Ela lembra que, por muito tempo, a ideia dominante era a de que o sucesso exigia partida: “Se tu quer ser alguém na vida, tu vai ter que sair da zona rural”, recorda. Mas sua própria trajetória desmente essa lógica. “A gente pode ser quem a gente quiser ser sem precisar sair do nosso território”, afirma, transformando a sucessão rural em permanência — e não mais em despedida.
O campo, antes visto como espaço de atraso, agora se revela terreno fértil para inovação. A sabedoria das mães se mistura às ideias das filhas, fortalecendo a agricultura familiar e ampliando possibilidades. Essa mudança, porém, só floresce porque o investimento chega a quem realmente produz. O gerente-geral do Agroamigo em Pernambuco, Evandro Souza, explica que o microcrédito orientado é decisivo para essa virada. Muitas mulheres, diz ele, vivem distantes dos centros urbanos e não conseguem acessar o crédito. Por isso, o programa leva o agente financeiro até elas: “Ele vai na casa, pega a documentação, elabora o projeto e traz para cá”. O objetivo, reforça, é ensinar a produtora a administrar, lucrar e manter os ganhos ao longo do tempo, garantindo que o recurso se transforme em vida melhor.
Essa transformação também é percebida pelo gerente-regional do IPA Caruaru, Leirson Bezerra, que destaca que a mulher rural deixou de ser ajudante para assumir o comando dos negócios e das associações. “O lugar dela é onde ela quiser”, afirma, ressaltando que a gestão feminina imprime cuidado, precisão e um olhar especial às organizações de agricultores familiares.

Amanda, que vive essa mudança na pele, diz que políticas públicas como o PNAE garantem dignidade e abrem portas para as próximas gerações. “Eu não tive a profissão que eu queria, mas minha filha vai ter — sem precisar sair da zona rural”, afirma. Ela defende o fim do estigma que marginaliza o campo e reforça: “Ser agricultor é uma profissão que tem que ser respeitada e valorizada como a do médico, do enfermeiro, do professor, do jornalista”.
Caruaru celebra seus 169 anos com a convicção de que o progresso continua brotando da terra. Ao longo da semana, a série mostrou como o associativismo, a ciência e o crédito transformam a vida de mulheres que hoje comandam o próprio destino. Quando tradição e inovação se encontram, o futuro ganha forma — e, no Agreste, esse futuro tem voz feminina.
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